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Luis Pellegrini
Certa tarde, há muitos anos, quando acabara de proclamar minha independência financeira e dava os primeiros passos no mundo do trabalho, abri o envelope que continha o meu salário. Caíram sobre a mesa umas parcas notas de cruzeiros, cruzados, reais, sei lá que nome tinha a moeda naquela época. Cada uma delas trazia a cara de algum herói ou heroína da história brasileira, a Princesa Isabel, Santos Dumont, Carlos Gomes. Todos eles me fitavam com insuportável ar desafiador e zombeteiro e perguntavam: “E aí, trabalhador, o que você vai fazer conosco?”
“Vocês vão para o aluguel da quitinete”, respondi agarrando algumas notas. “Vocês para pagar a faculdade, esta nota aqui para a prestação do terno, estas outras ficam para a comida e o transporte”, completei separando as que restavam. Sobrou ainda um montinho de notas. Sorri para elas. Pagariam algumas entradas ao cinema, umas pizzas e cerveja com os amigos e, se tudo corresse bem, um fim de semana ensolarado na praia do Guarujá. E que Deus me livrasse de uma gripe ou dor de dentes!
Tudo bem, nada grave. Essa conversa com meu dinheirinho era rotina todo começo de mês naqueles tempos de vacas magras. Mas naquela tarde, não sei bem por qual motivo, o papo foi diferente. Talvez por que o anoitecer estava tão lindo, e da janela do escritório, no último andar de um prédio da Avenida Paulista, eu via as montanhas distantes ainda brilhando à luz do sol poente. Ou então por que atrás daquelas montanhas, muito além delas, tantas coisas esperavam por mim e já gritavam, chamando “venha, venha”. Ou ainda por que sentia meu coração apertado, trancado dentro daquelas paredes enquanto a vida explodia lá fora. Não sei.
Segurei as notas e, num italianado tom dramático que às vêzes me ocorre, desabafei: “Um mês, um mês inteiro da minha vida por uns poucos pedaços de papel estampado. Tantas horas do meu tempo por tão pouco dinheiro. Será que essa troca é justa? Estarei vendendo minha alma ao diabo por um punhado de moedas?”
Momentos de silêncio se passaram. Até que uma resposta curta e misteriosa apareceu na minha mente: “O dinheiro verdadeiro é você. Cada nota é uma parte de você, e o que for feito com elas estará sendo feito por você e para você”. Nunca soube, é claro, de onde saiu essa mensagem. Mas gosto de imaginar que veio de Isabel, a Compassiva, a princesa da Abolição.
Ela produziu em mim um efeito libertador. Um efeito lento, na forma de um longo processo de reflexão que dura até hoje sobre o dinheiro e seu papel em nossas vidas. Vamos por partes.
Para começar, não sou o único. Nunca conheci alguém que se sinta inteiramente à vontade na sua relação com o dinheiro. Ricos, pobres ou remediados, raramente alguém está satisfeito com a própria situação financeira. Ricos muitas vezes sentem-se esmagados pelo dinheiro que possuem e consomem grande parte do seu tempo e energia vital tentando nutrir e administrar o monstro monetário que mantêm enjaulado nos cofres dos bancos, bolsas e corretoras de valores. Pobres também vivem esmagados, mas pela falta de dinheiro. Remediados são acossados dos dois lados: pela proximidade da pobreza que está sempre à espreita, e pela ambição da riqueza sempre tão difícil de alcançar. Será então o dinheiro um diabo maléfico que só traz preocupação e infelicidade? Ou será o dinheiro um deus, adorado pela maioria das pessoas, mas “o mais impiedoso de todos os deuses”, como dizia há mais de um século a teósofa Helena Blavatsky? São perguntas importantes, sobretudo no mundo moderno em que o dinheiro, seguido pelo sexo, constitui a maior das obsessões.
Dinheiro é o conceito mais problemático da nossa cultura. Objetivamente ele é apenas isso: um conceito e um meio de troca – um padrão ou denominador comum quando trocamos mercadorias e serviços. Seu valor objetivo deveria terminar aí. Mas não é isso o que acontece. O dinheiro, psicologicamente, é um espelho onde projetamos nossas necessidades mais básicas, nossos temores mais profundos, as coisas ilusórias pelas quais lutamos. Porisso ele se transforma num demônio obsessivo extremamente forte e poderoso. Algumas pessoas são tão obcecadas por dinheiro que acreditam nunca ter o suficiente, e vivem num permanente estado de frustração, de fome de dinheiro. São levadas a acumular mais e mais, como se quisessem preencher com o dinheiro algum buraco, algum vazio pessoal que, na realidade, deveria ser preenchido com alguma outra coisa. Essa busca é muitas vezes apaixonada, furiosa, desesperada. Uma busca tão obsessiva que pode dissolver casamentos, acabar com a saúde e transformar a existência num inferno sem fim. Simplesmente por que todo o dinheiro do mundo não é capaz de preencher o vazio interior das pessoas. O vazio existencial, a carência afetiva, a ausência de significado e de sentido de vida que são, na verdade, vazios espirituais. Porisso, como deriva quase sempre de um mecanismo de compensação neurótica, a obsessão pelo dinheiro é um vício, tal como o alcoolismo, a gulodice desenfreada, ou a compulsão pelo trabalho.
O dinheiro é sem dúvida o melhor espelho da nossa cultura e das mazelas do nosso tempo. A ênfase que lhe atribuímos carrega, no entanto, uma importante mensagem. Ela nos revela que muitas pessoas estão alienadas de seus valores mais profundos, alienadas de si mesmas e também das outras pessoas. Porisso é cada vez maior o número daqueles que, perplexos, perguntam: “Mas para que tudo isso, afinal?” Aqueles que “conquistaram tudo”, aqueles que “conseguiram chegar lá” descobrem que, ao chegar lá, esse “lá” não existe ou é muito diferente daquilo que se imaginava.
Uma lição importante sobre a relatividade do dinheiro, e sobre um dos verdadeiros sentidos das transações que envolvem dinheiro, foi-me dada há anos de um modo totalmente inusitado. Conto essa história no meu livro “Os pés alados de Mercúrio”. Vou sintetizar aqui. Eu estava no Marrocos, na cidade de Marrakech, fazendo compras para uma loja italiana de roupas e objetos artesanais. Buscava em particular uma peça rara da indumentária artesanal marroquina, os cafetãs de Tetuan, que são roupas longas para mulher feitas de algodão branco e com ricos bordados em tons de vermelho na altura do peito. Passara um dia inteiro no bazar de Marrakech, mas em todas as lojas a resposta era a mesma: “Cafetãs de Tetuan, só na cidade de Tetuan. Aqui só temos cafetãs de Marrakech”. Claro, no Marrocos, cada cidade tem o seu modelo especial de roupa para mulheres, e a rivalidade é grande.
No dia seguinte, bem cedo, vasculhando uma área mais afastada do bazar, passo diante da porta de uma lojinha e lá está ele, pendurado num cabide, balançando com a brisa, um magnífico exemplar de cafetã de Tetuan. O dono, um marroquino de meia idade, bigodudo e ligeiramente obeso, informa dispor de umas quarenta peças e estar disposto a negociar todo o lote. A partir daí, para encurtar a história, travamos uma verdadeira batalha até definirmos o valor da compra. A contenda durou umas quatro horas, com lances teatrais na forma de gritos irados e insultos terríveis ditos num árabe para mim incompreensível, e lances cômicos, como num momento em que eu, irritado, resolvi desistir e sair à rua, mas o marroquino correu atrás de mim, agarrando-me pelo rabo do paletó e fazendo-me voltar à loja. Finalmente chegamos a um acordo, exatamente o valor médio entre o seu primeiro preço, muito alto, e a minha primeira oferta, muito baixa.
Negócio fechado, paguei, mandei entregar tudo no hotel onde estava, e começava a me despedir quando o marroquino me interrompeu. Disse que o nosso dia estava ganho, que a luta que traváramos tinha feito de nós bons amigos, e que nenhum amigo saia da sua casa sem, pelo menos, tomar um chá. Dito isso, fechou a porta da loja por dentro e levou-me até um pequeno escritório nos fundos onde, num canto, havia um grande tapete e uns almofadões para se recostar. Deu um berro e um garotinho atendeu solícito. Era um dos seus filhos, que logo depois voltou com grandes copos de chá de hortelã, de sabor forte e açucarado – a bebida tradicional do Marrocos -, queijo, pão árabe, e uns confeitos ótimos com sabor de amêndoa.
Durante o chá o marroquino transformou-se por completo. Virou um anfitrião educado, de conversa inteligente. Em certo momento revelou, falando francês com sotaque carregado: “Hoje para mim é um grande dia. Encontrei um ocidental de alma árabe, você. Os americanos e europeus vêm aqui mas não sabem comprar. Quando lhes dizemos o preço de um artigo eles não pechincham, pagam logo ou acham caro e vão embora. Você não, você compra como ‘un vrai arabe’, um verdadeiro árabe. Você discute e briga até chegar ao preço justo. Se não fizermos isso, como vamos medir forças, como vamos mostrar do que somos capazes, como vamos nos conhecer para que possamos ficar amigos?”
Entendi tudo naquele instante. Pouco importavam o dinheiro envolvido na transação, as horas gastas na contenda, os cafetãs de Tetuan, por mais bonitos que fossem. Só importava a possibilidade de uma nova amizade, o estabelecimento de uma nova relação humana honesta e afetuosa. Tudo o mais não passava de meio para que o verdadeiro objetivo fosse alcançado. Aquela confraternização à base de chá de hortelã era nosso prêmio, não pelo negócio realizado, mas sim pelo acordo humano a que chegamos através da esgrima do negócio.
Muito tempo depois disso, no Brasil, um outro aspecto que não conhecia do dinheiro foi-me revelado. Tinha a ver com o sentido espiritual do dinheiro segundo a tradição afro-brasileira. Quem me abriu as portas desse conhecimento foi meu babalorixá de umbanda, Carlos Buby, que dirige em São Paulo o Templo Guaracy, no bairro de Campo Limpo. Ele me disse que na sua tradição o dinheiro é entendido como uma divindade e tem inclusive um orixá que lhe corresponde. Seu nome africano é Ajé-Xaluga. O dinheiro que utilizamos na forma de papel ou de moedas é apenas a representação material de Ajé-Xaluga, da mesma forma que a água salgada representa o orixá Iemanjá, as árvores o orixá Oxossi, etc.
Ajé-Xaluga é um orixá complexo, e não é fácil trabalhar com ele. Mesmo assim o pai-de-santo aceitou revelar um fundamento dele, e ensinou inclusive uma mandinga para entrar em boa relação com essa divindade pouco conhecida do panteão afro-brasileiro. O fundamento de Ajé-Xaluga é que ele se alimenta dos nossos desejos. “Mas apenas dos nossos desejos supérfluos”, alertou Carlos Buby, “não dos nossos desejos necessários. Estes últimos pertencem a Exú, e Exú é uma entidade espiritual que está ligada a um outro orixá. Nunca se deve dar a um orixá aquilo que é ‘comida’ de outro orixá. Estaríamos desagradando a ambos”.
Esclarecendo: se estou bem alimentado, e continuo a comer por gulodice, o desejo que corresponde a essa comida supérflua pertence a Ajé-Xaluga. Mas se meu desejo de comer corresponde à necessidade de alimento para manter-me vivo e saudável, esse desejo pertence a Exú.
E a mandinga para chamar a atenção do orixá do dinheiro? É fácil. Ofereça a ele alguns dos seus desejos supérfluos. Por exemplo: você vai ao aeroporto buscar um passageiro. Chega lá e toma um café. Fica sabendo que o vôo está atrasado, e você deve ficar lá, esperando. Quando vier aquela vontade de tomar mais um café, simplesmente para matar o tempo, não tome. Remeta a Ajé-Xaluga a energia desse desejo não necessário. Mais cedo ou mais tarde ele vai retribuir mandando de volta essa energia transmutada em dinheiro. Todo orixá retribui aquilo que lhe é ofertado, usando para isso a energia que lhe é própria. Isso é lei na tradição mágica afro-brasileira.
Cito Ajé-Xaluga, o orixá que representa o aspecto espiritual do dinheiro, por que o conflito mais comum acerca de dinheiro é justamente o seu relacionamento com a espiritualidade. Desde os tempos bíblicos – quando Jesus teria dito “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu”- existe o preconceito cultural de que dinheiro e espiritualidade são antagônicos, não podem existir lado a lado, não podem dialogar nem ajudar-se mutuamente. Espiritualidade é entendida como “virtude” e dinheiro como “coisa impura e perigosa”. Mas isso é mesmo puro preconceito. Deus e seus emissários, os orixás, certamente gostam também dos ricos, desde que eles façam bom uso de sua riqueza.
Dinheiro é também estreitamente ligado às questões do poder, status e valor pessoal, conforme os parâmetros da nossa sociedade da produção e do consumo. Frases como “Tempo é dinheiro”, “O valor de um homem mede-se pelo recheio da sua carteira”, “Dinheiro não dá em árvore”, “Você nunca é suficientemente rico ou suficientemente magro”, dão bem a idéia dos valores distorcidos e neuróticos atribuídos ao dinheiro. São frases que propagam um recado de desencorajamento – que dinheiro é dificil de obter, uma coisa assustadora, um mal necessário. São sobretudo conceitos que nos desviam de uma coisa muito mais necessária e legítima: a descoberta e o incremento dos potenciais e qualidades positivas inerentes à nossa pessoa. Que importância as virtudes naturais que carregamos passam a ter quando somos julgados apenas pelo dinheiro como medida de sucesso e valor?
Claro, dinheiro é poder. Por essa razão tantas pessoas são capazes de dar a própria vida por dinheiro. Ou não é exatamente isso que fazem quando sacrificam o seu espaço e o seu tempo de vida só para acumular dinheiro? Nada há de errado com o poder em si mesmo. Mais uma vez, isso depende do uso que fazemos dele. Podemos perfeitamente usar o poder do dinheiro de modo construtivo, criativo, ético, amoroso. Podemos usá-lo de modo destrutivo e imoral, como quando o usamos para influenciar e manipular as pessoas.
O ponto chave quando se trata de dinheiro não é o quanto você tem, mas como você lida com o que tem. O dinheiro é por princípio neutro – recebe uma qualidade positiva ou negativa, libertadora ou aprisionante através do modo como é empregado.
Quando lhe ocorrer a pergunta “Dinheiro, quanto é suficiente?”, simplesmente responda “O necessário para fazer aquilo que realmente me importa”. Por que, como já dizia a voz da minha princesa Isabel, o verdadeiro dinheiro sou eu, o verdadeiro dinheiro é você. E as notinhas de papel impresso só têm, na verdade, essa função: servir àquilo que realmente nos importa.
Originally posted 2010-02-28 21:18:13.




