A maior tragédia do nosso tempo talvez não seja o envelhecimento da população, mas a fabricação em massa de pessoas que perderam a capacidade de se maravilhar muito antes da velhice chegar.
Vivemos mais do que qualquer outra geração da história. Temos medicamentos mais sofisticados, exames mais precisos, academias em cada esquina, relógios inteligentes monitorando nossos batimentos, dietas calculadas por algoritmos e promessas quase religiosas de longevidade. E, paradoxalmente, nunca parecemos envelhecer tão cedo. Não apenas o corpo, mas sobretudo a alma e o espírito.
Existe uma velhice que não aparece na certidão de nascimento. Ela chega quando deixamos de aprender. Quando paramos de nos apaixonar. Quando desistimos de mudar de ideia. Quando transformamos a surpresa em incômodo e o desconhecido em ameaça. É nesse momento que algo profundo começa a morrer dentro de nós.
Não começamos a envelhecer quando fazemos sessenta, setenta ou oitenta anos. Começamos a envelhecer no dia em que acreditamos que já vimos tudo, já aprendemos tudo e já não existe mais nada capaz de nos transformar. Nesse dia, o relógio continua marcando horas. Mas a vida deixa de marcar futuro.
